EXCLUSIVO✻
Com saudade , com verdade e intensidade....
Eu não gostava do mundo, mas em tempos precavidos e tranquilos, dava quase para compreendê-lo.

Mas a gente erra feio, Zé. A gente pensa que qualquer tristeza é depressão, que qualquer amor perdido é o fim da vida, e que uma briguinha a toa é caso de guerra no universo. Nessa era maluca de imediatismos a gente não se deixa doer, não se deixa viver devagarinho e assim sem mais nem menos a gente não se conhece. A gente quer o soro sem tomar vacina, a gente quer remédio rápido sem nem dar bola a prevenção. A gente quer viver das fotos felizes dos álbuns de aniversários e casamentos, mas não quer lembrar dos velórios. A gente quer esquecer o sofrimento porque machuca, a gente quer sepultar partes da nossa alma porque pensa ser caos demais pra aguentar. Mas acontece, Zé, que a gente é tudo isso. A gente é esse sobe e desce descontrolado. Essa montanha russa desenfreada, essa roda gigante que acaba com o nosso estômago mas também nos dá a sensação de voar. E é isso Zé, que a gente não quer ver. Queremos bons amigos sem cultivá-los, amores sinceros sem ganhá-los, queremos calmaria sem sair da zona de guerra. Nós queremos as flores, mas não queremos nos sujar de terra. Ansiamos a primavera, e não damos valor aos invernos. A gente aplaude os sorrisos mas não contempla a libertação de um choro. Nesses tempos em que se compra tudo em cápsulas e pacotes, nós queremos soluções improvisadas que não nos doam a cabeça. Porque a gente não quer se doer, se doar, se entregar. A gente quer é uma vida boa, quando só sabemos sobreviver. Quando a gente não sai da rotina, não ousa, não faz nada além de reclamar. E dizer: “minha vida tá uma merda’. A gente, Zé, não vê mais o céu nos sorrindo, porque a gente não abre a janela. A gente se tranca dentro da nossa bagunça, e faz da solidão um mantra. A gente não olha pro lado, pra dentro de nós, não para o mundo pra nos escutar. A gente se esquece guardado dentro de um baú, e finge estar presente. Quando não se está. Quando a gente, assim sem ver, se perde por entre os segundos mal gastos de existir mas não estar, de fazer parte mas não pertencer. A gente erra feio, Zé, quando não insisti em se consertar.

Cidade do Caos.

  1. textos-manuscritos reblogou este post de insanidades-da-alma
  2. drunk-upp reblogou este post de transvazar
  3. breasonsandemotions reblogou este post de transvazar
  4. a-bobalhada reblogou este post de soleiramar
  5. noitede14 reblogou este post de transvazar
  6. fabricavel reblogou este post de transvazar
  7. poesifica-r reblogou este post de florindo-me
  8. insanidades-da-alma reblogou este post de florindo-me
  9. soleiramar reblogou este post de florindo-me